quarta-feira, 29 de junho de 2011

Walfredo Gurgel: desabastecimento, superlotação e sucateamento

É final de tarde no Walfredo Gurgel, o maior hospital do Rio Grande do Norte, especializado em atender urgência e emergência. Do lado de fora, as coisas parecem normais. Há poucas ambulâncias na frente do prédio e a recepção não está superlotada. Mas essa aparente normalidade para por aí. Nesta quarta-feira (29), a reportagem do Nominuto.com percorreu vários setores, conversou com profissionais e ouviu pacientes sobre a situação deste estabelecimento de saúde. A constatação choca não pelo ineditismo, mas sim pela recorrência: crise de abastecimento de insumos, sucateamento da aparelhagem, falta de recursos humanos e doentes em macas acumulados pelos corredores.

Dona Josefa Anália do Nascimento, 93 anos, está há dois dias no corredor e sofre com uma infecção pulmonar. Ela tem os pulsos presos à maca, se alimenta com dificuldade e está extremamente debilitada. A sobrinha que a acompanha, Maria de Fátima dos Santos, contou que não deram nenhuma previsão sobre quando a tia será transferida para a enfermaria.

“Não tem vaga. É uma calamidade”, disse, em tom de desabafo. Além de dona Josefa, outros 32 pacientes dividiam espaço num dos corredores do hospital à espera de vaga na enfermagem.

O presidente do Sinmed (Sindicato dos Médicos), Geraldo Ferreira, disse que a superlotação é um dos três eixos que compõem o quadro caótico do Walfredo Gurgel. Os outros dois são a falta constante de material de trabalho e o quadro insuficiente de profissionais para dar conta da grande procura por serviços de saúde.

“Há uma demanda excessiva, uma procura acima da capacidade que o hospital tem de prestar serviços. Depois, vem o sucateamento da aparelhagem devido ao excesso de uso. Por fim, há o problema da crise de abastecimento. A carência de insumos é constante. Na anestesia, por exemplo, várias medicações são substituídas por outras mais baratas. Esses são os três focos que do problema que atinge o Walfredo Gurgel e se estende pelos outros hospitais do Estado”, denunciou.

Uma enfermeira que pediu para não te o nome divulgado fez coro à reclamação. Ela disse que nesta quarta-feira faltaram luvas de procedimento. Ela explicou que, quando isso acontece, os profissionais usam outro tipo de luva, mais cara, utilizada em procedimentos invasivos, como passagem de sondas.

“A falta de material adequado prejudica o atendimento aos pacientes. Os profissionais trabalham sob forte stress, porque a demanda é muito grande e as condições são as piores possíveis”.

Uma médica residente, que também pediu para não ser identificada, relatou mais problemas de abastecimento. Ela disse que muitos pacientes chegam ao hospital com pneumotórax (acúmulo anormal de ar entre o pulmão e uma membrana – pleura – que reveste internamente a parede do tórax), precisando de um dreno torácico, mas ás vezes não há tubos com a numeração adequada.

“Cada dreno tem um calibre específico, mas às vezes só tem numeração maior ou menor, o que não é adequado. Aí a gente tem que fazer uma gambiarra”, explicou.

Ela citou ainda problemas com as canolas usadas para entubar pacientes em estado de coma. “Crianças, homens e mulheres têm calibres diferentes das traqueias, o que requer que sejam entubados com canolas de tamanhos diferentes, mas geralmente não há a numeração correta. Aí você termina provocando uma agressão ao paciente, que pode cicatrizar e levar ao estreitamento do canal da traqueia”.

Além disso, também é comum faltar compressas cirúrgicas (panos brancos esterilizados) e até mesmo algodão e esparadrapo. No Hospital Santa Catarina, na zona Norte de Natal, a médica revelou que cirurgias foram suspensas pela falta de compressa e que pacientes saem com sutura exposta porque não tem esparadrapo.

Faltam vagas na UTI e na Ortopedia

Na sala do atendimento clínico, todos os boxes estão ocupados por pacientes entubados. Essas pessoas deveriam estar na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), mas não há vagas no setor. Com o pronto socorro lotado, falta lugar para colocar os pacientes que precisam de atendimento de emergência.

Os problemas não cessam por aí. O ortopedista Justino Nóbrega disse que, atualmente, numa estimativa otimista, 238 pacientes esperam por uma cirurgia eletiva. Destes, 38 estão internados no Walfredo Gurgel. Os demais aguardam em casa.

Esses pacientes são a maioria entre os que estão jogados nos corredores do hospital. O médico afirmou que “a fila nunca acaba” porque não há vagas nos hospitais conveniados para fazer esse tipo de cirurgia.

No Walfredo, só são feitas operações de urgência. As cirurgias eletivas são realizadas em dois hospitais conveniados: Memorial e Médico Cirúrgico. Como a procura é grande, não há vagas para todo mundo. O resultado é que essas pessoas ajudam a aumentar a superlotação no HWG.

Muitos pacientes, segundo o ortopedista, chegam a ficar até quatro semanas nos corredores do Walfredo, esperando pelo milagre do atendimento. O aposentado Evaldo Leite da Silva, 71 anos, quebrou a perna direita há nove dias e, até agora, não sabe quando fará a cirurgia que necessita.

O filho dele, Ivanildo Rolim Ferreira, contou que, há dois dias, os remédios que o pai tomava para amenizar a dor acabaram. O Dr. Justino Nóbrega confirmou que, normalmente, faltam antibióticos e medicamentos básicos.

Soluções

Geraldo Ferreira, presidente do Sinmed, disse que o problema do Walfredo Gurgel é agravado pelo fluxo constante de pacientes vindos de cidades do interior que não oferecem suporte aos seus moradores.

Para ele, para resolver o problema é preciso aumentar a oferta de leitos com a construção de um novo hospital em Natal, reestruturar os hospitais regionais, melhorar a rede obstetrícia e universalizar o PSF (Programa de Saúde da Família).

“Há 20 anos já tínhamos praticamente mesma estrutura hospitalar que temos atualmente. Como a população cresce rapidamente, essa rede se tornou inadequada. Além disso, perdemos o suporte da rede particular, que deixou de atender porque a tabela de remuneração ficou baixa”, pontuou.

Geraldo Ferreira elencou ainda as deficiências na rede ambulatorial e na cobertura do PSF em Natal. "Natal precisaria ter 200 equipes do PSF, mas só tem 120. Destas, 40 não têm médicos. O problema ocorre também em Parnamirim, que precisaria de 80 equipes, mas só tem 44, sendo que em 20 delas não há médicos”.

Na avaliação do diretor do sindicato, há uma “desarrumação geral no setor da saúde pública no Rio Grande do Norte”. “Falta planejamento que permita encontrar soluções. Não estamos vendo ações do governo para resolver a situação. Não há hospitais sendo construídos, leitos sendo abertos, concursos para contratação de profissionais, recuperação das instalações nem reequipamento dos hospitais. Isso nos preocupa”. Fonte: Nominuto.com

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